O TATU BOLINHA

 

                         

                             Marlene B. Cerviglieri

 

 

 

Hoje gostaria de contar uma história que aconteceu no jardim de minha avó.

Ela tinha muitas flores e o pouco que entendo de flores devo as lições que ela me dava.

Mas nada me impressionou tanto como a história do tatuzinho.

Estava ela regando as plantas quando eu vi um bichinho sair correndo e se enfiar na terra num minúsculo buraquinho.

Corri para minha avó e contei o que havia visto toda surpresa, pois como o bichinho iria respirar em baixo da terra!

- Calma minha linda - disse a vovó - vamos ver o que você realmente viu.

E assim começou a me falar das minhocas, formigas e outros nomes de bichinhos que vem na terra.

- Por isso - disse ela - é que uso luvas e sempre peço a você que lave as mãos com sabão depois de brincar na terra.

- Ela esconde muitas coisas que ainda nem sabemos o que é, mas que nos fazem mal.

- Como fazem mal vovó?

- Sem querer, é claro, às vezes estão apenas se defendendo, pois aquele é o mundo deles.

- Sempre que vir algo diferente fique a distância e não ponha o dedo ou a mão.

- Eles mordem?

- Não, mas pelo que sei picam e sei que vai doer muito, e é preciso depois ir ao médico para se cuidar.

- Vovó, veja o bichinho está saindo do buraquinho!

- Sei, estou vendo. Veja o que ele vai virar!

Espantada vi o bichinho virar uma bolinha!

Fiquei de boca aberta e puxando seu avental gritava para saber o que acontecera?

- Minha querida, assim como uma bolinha ele está se escondendo de nós.

- Daqui a pouco ele volta a andar e correr novamente, mas se você tocar nele, imediatamente ele se transforma em bolinha.

- Incrível vovó, nunca vi uma coisa assim! - disse eu extasiada.

Aí então veio a lição da vovó que nunca vou esquecer.

- Ouça o que a vovó tem para te dizer:

- Na vida, às vezes, temos situações quase iguais a do bichinho.

- Estamos em nossos lugares e de repente vem alguém e tenta nos ferir ou até fere, e o que fazemos?

- Nós nos escondemos de tais situações com medo de ser ferido como o bichinho, mas está errado.

- Devemos, sim, enfrentar nossos medos com cautela e resolvê-los para que não necessitemos virar bolinha.

- Você entendeu o que eu quis te dizer?

- Mais ou menos vovó.

- Quando eu tiver medo ou um problema não devo me esconder, pois ele continuará ali.

- Devo sim tentar resolvê-lo não é mesmo?

- Isso minha menina esperta, e agora pegue um vidro que vamos colher as minhocas para o seu  avô ir pescar.

- Mas vovó, coitadinhas!

- Querida cada um destes bichinhos tem o seu propósito, e nós temos o nosso, mas este é um assunto para uma outra hora.

- Vamos então a nossa tarefa.

E hoje muitas vezes tento não ser o tatu bolinha...

 

 

 

 

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