O DUELO


Maria Hilda de J. Alão.


Vem pra cá, ó sua boba,
Disputar se for capaz
Qual de nós é a melhor
Palavra deste idioma.

Sou a palavra à-toa com hífen,
Orgulhosa locução adjetiva,
Tu és simplesmente à toa
Locução adverbial inexpressiva.

Grande coisa minha cara,
Prefiro ser uma pobre palavra
A ter como tu, espertinha,
Reputação tão duvidosa.

Tu tens inveja de mim
Por isso me deprecias.
Eu sou à-toa e sou feliz,
Mais à-toa é que me diz.

Ninguém te quer ao seu lado:
Amigo à-toa! Cruzes! Nem pensar,
Mas brincadeira à toa
A criançada acha uma boa.

Falas pelo meu significado,
Tudo que dizem é fofoca,
Desprezível, inútil, se disser:
Eu nem me importo, sua boboca.

Andar à toa, fazer coisas à toa,
É comportamento de gente louca,
E quem quer andar por aí
Com uma palavra tão doida?

Eu posso ser muito doida,
Mas andar à toa proporciona:
Ver a paisagem sem pressa;
Ouvir a passarada cantando;

O sol indo pro horizonte;
Crianças jogando bola;
Estrelas surgindo no céu,
E o sereno molhando as flores.

Não disfarça, palavra à toa,
Tua conversa é muito boa,
Mas eu continuo dizendo
Andar à toa é coisa de abobado.

Eu afirmo e reafirmo,
Sua locução adjetiva metida,
Teu destino é difamar
O grande rei substantivo

Fazendo dele um monarca à-toa.
Acho melhor parar por aqui
Porque sendo à-toa ou à toa
Somos filhas do bom português

Vindo da Europa em caravelas
Com gente boa e gente à-toa,
Superando o guarani dos índios
Que na praia andavam à toa.

E pra terminar esta disputa,
Meninos e meninas, atenção,
Fechem de supetão
O dicionário Aurelião.

22/07/06.

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