O CASAMENTO DA PESCADINHA


Maria Hilda de J. Alão.



              No fundo do mar reinava grande alegria. Era o dia do casamento da Pescadinha com a velha Pescada Macho, apelidada de “Pescadão”.
               A mãe da noiva nadava pra lá e pra cá dando ordens, pois queria que o casamento de sua filha fosse o maior acontecimento de todos os tempos. Queria que esse evento fosse lembrado por muitos e muito anos. Para isso exigia perfeição nos serviços dos garçons, três elegantes golfinhos; das três garçonetes, as trigêmeas filhas do Peixe Galo e do maitre, o gentil Robalo. Verificou a orquestra formada pelos Camarões dos mares de Espanha, que tinha como regente o competente Peixe Palhaço, que já estava nervoso com o atraso do seu primeiro violinista, o Peixe Boi. A cantora, dona Arraia, muito elegante, ensaiava a Marcha Nupcial. A carruagem, que conduziria a noiva à capela, seria levada pelo veloz Peixe Voador para que não houvesse atraso da cerimônia.
               E a noiva? Como estaria? Feliz? Não. A pobrezinha sofria muito, pois já estava chegando a hora do sacrifício. Pensou em fugir. Desistiu porque sabia que sua mãe mandaria o exército de Lulas atrás dela. Pensou no seu amado, o Peixe Bagre. Chorou muito. Ouviu a mãe chamar.
               - Pescadinha, filha, você já está atrasada. Vista-se rápido, peixinha!
             - Já estou indo... - Respondeu tristonha lembrando o dia que sua mãe descobriu o seu namoro com o Peixe Bagre. Foi um escândalo.
               - Como pode você, minha filha, namorar um peixe sem eira nem beira, um pobretão que não tem nem uma toca pra morar! Eu não vou permitir. Você vai namorar o senhor Pescadão que é um peixe muito rico.
               Do outro lado do mar, na sua toca simples, mas limpinha, estava o Peixe Bagre chorando. Foi quando chegou o senhor Lagosta.
               - Como é companheiro! Vai entregar o ouro sem lutar? Vamos, meu rapaz, coragem! Levanta a cabeça e parte pra luta. Vamos buscar aquela peixinha danada de bonita. – o Bagre perguntou.
               - Como posso fazer isso? Ela está se casando...
               - Ora meu, é fácil!
               - Como?
              - Vamos falar com o mestre Peixe Elétrico, meu amigão. Vamos pedir que elabore um plano para tirar a sua amada dessa roubada.
               Partiram em direção a casa do Peixe Elétrico. Chegaram, bateram o peixe atendeu e os mandou entrar. Sentaram, contaram a história e quando terminaram o Peixe Elétrico disse:
               - Bem amigos, é o seguinte: eu chego à capela e começo a distribuir choques para todos os lados. A peixarada nadará em disparada, com medo, aí vocês aproveitam para pegar a noiva. Tem de ser rápido antes que chamem a polícia.
               - Será que vai dar certo? – questiona o Peixe Bagre.
               - Deixa de ser burro cara, com o meu amigo Peixe Elétrico não tem erro.
               - Relaxa Bagre!
               Partiram os três para a grande aventura. Chegaram. A noiva estava entrando rumo ao altar enfeitado com algas marinhas verdes. Dona Arraia cantava a marcha nupcial:


      “Lá vem a noiva
            toda de branco
               um pé tem sapato
                 e o outro tamanco”

          


               O Bagre, tremendo, disse ao senhor Lagosta:
               - Dê a ordem de ataque. – o senhor Lagosta estufou o peito, tirou seu cornetim debaixo da sua tesoura (equivale a braços) e tocou alto a senha combinada.
               - Tararara, tarara, tarara...
             O Peixe Elétrico, atento, começou a eletrificar a água da capela. A peixarada nadou em disparada para fugir dos choques. Uns trombando nos outros, os filhotes gritavam muito e a noiva chorava em desespero. O noivo estava paralisado. Neste momento chegou a carruagem feita de cascas de ostra, propriedade do senhor Pescadão, com uma enorme pérola no teto e puxada por dois alegres golfinhos. O senhor Lagosta, apressado, pegou a noiva e a colocou dentro da carruagem, gritando para o Bagre que estava na boléia.
               - Avante meu camarada! Eia, eia, eia, eia...
               E a carruagem partiu levando o casal de namorados para um lugar, nas regiões abissais, onde ninguém os encontraria. Lá eles vivem felizes até hoje.
 

 

 

 

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