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AS
MÃOS
Maria
Hilda de J. Alão.
No tempo dos reis, das fadas e das bruxas, três homens viajavam num
barco quando uma tempestade afundou a embarcação indo os três,
depois de muito nadarem, parar na praia de um país desconhecido. Os
homens eram de classes sociais diferentes. Um era rico comerciante,
o outro filho de um rei valoroso e o outro era pastor de ovelhas que
não eram suas.
Caminharam muito até chegarem numa cidade. Eles contavam sobre o
naufrágio, das horas que passaram no mar lutando contra as ondas
esperando, com isso, ajuda daquela gente. O povo olhava desconfiado
para aqueles forasteiros maltrapilhos, barbudos e murmuravam
palavras de esconjuro. O comerciante, acostumado à fartura da sua
casa, falou:
- Estou cansado disso tudo. Que povo mais insensível! Nem um prato
de comida, nem um catre para eu descansar meu corpo dolorido e
ferido pelas agruras do azar.
Os outros dois não disseram nada. Estavam entretidos tentando
acender um fogo, batendo duas pedras uma na outra, para cozinhar,
numa lata com água do rio, umas folhas que mais pareciam capins. A
idéia fora do pastor de ovelhas. Ele conhecia as plantas e sabia
distinguir as comestíveis das não comestíveis.
Quase um mês havia se passado e nada. Numa noite de lua cheia e
pouco fria, na gruta onde eles dormiam, os três conversavam
analisando a situação que estavam vivendo.
- Eu sou comerciante, sei matemática como ninguém e de que me serve?
Ela não mata a minha fome, não me aquece e não me faz voltar para
casa.
O outro homem, o filho do rei, disse:
- Eu tenho fortuna, muitas terras, uma esquadra de navios que eu
trocaria de bom grado por um prato de comida quente, um cobertor e a
volta para casa.
Já o pastor de ovelhas, olhando sério para os dois, falou:
- Eu não tenho ouro, terras, navios, também não sou bom de
matemática, de meu eu só tenho as minhas mãos.
Os outros dois não entenderam nada. Eles também tinham mãos. O que
será que o pastor quis dizer? Foram dormir com o firme propósito de,
no dia seguinte, oferecer seus conhecimentos para os moradores da
cidade em troca de dinheiro para voltarem para casa. Amanheceu. Com
os estômagos vazios, os três se separaram tomando rumos diferentes
não sem antes combinarem o encontro na fonte da praça ao final do
dia.
O comerciante visitou outros
comerciantes que não estavam nem um pouco interessados nos seus
conhecimentos de matemática. E o filho do rei? Ele oferecia dinheiro
e terras fato que deixava as pessoas desconfiadas a ponto de
expulsá-lo a chutes.
O pastor de ovelhas seguia por uma estrada quando avistou uma velha
senhora que tentava, com um machado sem corte, partir ao meio um
grosso tronco de árvore. Ele se aproximou e, gentilmente, disse:
- Se a senhora permitir eu racho este tronco.
- Ah, meu filho! Grata eu lhe serei
por toda a vida. Depois que meus três filhos foram para a guerra eu
tenho muita dificuldade para conseguir lenha para a lareira.
O pastor pegou o machado, afiou a lâmina com uma pedra, e partiu o
tronco transformando-o num amontoado de lascas de lenha prontas para
arderem na lareira da velha senhora. Ele carregou a lenha, arrumou-a
em pilhas no celeiro, levou uma porção para dentro da casa
empilhando ao lado da lareira. A senhora tinha lenha dentro da casa
para mais de uma semana. Terminado o serviço, a senhora o convidou
para cear.
- Meu filho, gostaria de fazer um acordo com você. Como você viu, eu
tenho uma propriedade enorme e sozinha eu não dou conta do serviço.
Preciso de alguém que me ajude. Eu pago bem. Então? Aceita?
O pastor de ovelhas, cujo nome era Salomão, contou para a senhora a
história do naufrágio, falou dos outros dois homens, das
necessidades que eles estavam passando. Ficou combinado que no dia
seguinte Salomão levaria os dois para conhecerem a mulher. Antes de
Salomão pegar a estrada rumo à fonte da praça, a senhora arrumou uma
mochila com comida, algumas peças de roupas dos seus filhos, três
cobertores e o pagamento pelo trabalho do pastor: cinco moedas de
prata.
Quando chegou à praça lá estavam os dois de cabeça baixa. Não tinham
conseguido nada. Ao avistarem Salomão foram logo perguntando:
- Conseguiu alguma coisa? – o filho do rei foi logo dizendo:
- Como poderia conseguir, ele não tem nada, não sabe nada a não ser
guardar ovelhas...
Salomão ficou triste com a observação do príncipe, mas não disse
nada. Caminharam em silêncio até a gruta. Só quando o pastor colocou
a mochila no chão é que o comerciante perguntou:
- Onde achaste este alforje?
- Eu não achei, eu consegui com minhas mãos.
E contou para os dois sobre a velha senhora que morava só e que
necessitava de mãos para ajudá-la no trabalho. No dia seguinte,
depois de tomarem banho no rio e vestirem as roupas dadas por ela,
os três se apresentaram e começaram a usar a mais perfeita
ferramenta que Deus criou: as mãos.
Foi um tempo feliz. Os três se
esmeravam no trabalho. A fazenda da mulher produzia a todo vapor. O
que eles não sabiam sobre cultivo da terra a senhora ensinava. Já
sobre as ovelhas, Salomão era conhecedor e passou todo o seu
conhecimento para os outros. À noite, depois do estafante trabalho,
a senhora sentava na sala aquecida pelo fogo da lareira e junto com
o comerciante fazia o balanço dos gastos e dos ganhos, enquanto o
príncipe, juntamente com o pastor, fazia planos para a próxima
tosquia das ovelhas. Ficaram ali por um bom tempo.
Um dia, para surpresa de todos, os
filhos da senhora voltaram da guerra. Foi uma alegria só.
Estava chegando a hora dos três homens voltarem para casa. Dinheiro
eles tinham o suficiente, mas uma coisinha estava fazendo doer o
coração. Era o amor que eles ganharam por aquela mulher corajosa.
Ela era, para eles, a mãe e eles, para ela, os três filhos que
estavam fora. Na despedida a senhora, abraçando cada um deles, dizia
que se sentia do mesmo jeito que se sentiu quando seus filhos
partiram para a guerra. Para consolo, ficou a promessa de voltarem
um dia trazendo as suas famílias.
E assim, meus amigos, o comerciante aprendeu que diante de certas
situações os conhecimentos intelectuais não valem nada. E o príncipe
que a riqueza é mais pobre que a pobreza quando se tem frio e fome e
se é desacreditado em terra estranha. Já Salomão, além do seu
conhecimento sobre ovelhas, aprendeu a matemática do comerciante
para calcular o lucro da produção de leite, lã e carne de ovelha do
seu futuro rebanho regido pelas mãos que Deus lhe deu.
20/11/06.
(histórias que contava para o meu neto)

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